O setembro amarelo acabou, nossos problemas não. Cuide-se!
- Victor Ferreira

- 7 de dez. de 2020
- 5 min de leitura
Como diria Criolo: “Depressão é a peste entre os meus”. O MC, sempre cirúrgico e incisivo em suas letras, tem razão nessa frase. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil lidera o ranking internacional de pessoas com transtornos de ansiedade. São cerca de 18,6 milhões de brasileiros afetados pela doença. Além disso, o Brasil é o quinto país no mundo com mais pessoas sofrendo de depressão e campeão no quesito quando falamos sobre América Latina.
Dado este quadro preocupante e alimentado pelo tempo caótico que vivemos, o CVV (Centro de Valorização da Vida), criou junto ao Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria, a campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, o Setembro Amarelo.
A campanha visa relacionar a cor ao Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, celebrado no dia 10 de setembro, estampando, pintando e colorindo os mais diversos lugares em prol da causa. Qualquer movimento que nos ajude a quebrar barreiras e tratar este tema complexo com responsabilidade e seriedade é ótimo, e o Setembro Amarelo tem um papel importante na conscientização sobre doenças psicológicas. Mas ainda que reconheça a importância dessa campanha, noto que ainda pairam muitas dúvidas e paradigmas na cabeça das pessoas quando o papo é sobre se abrir e cuidar da cabeça.
Além da relevância do tema, decidi escrever este texto pelo fato de já ter sofrido de depressão. Ainda que eu mesmo considere leve, foi um período que marcou minha vida de forma inimaginável e ainda me assola. Nós nunca acreditamos que estamos sendo afetados pelo transtorno. Atualmente, passo por tratamento psicológico, e venho me sentindo muito melhor, ainda que a recuperação não seja instantânea. Para mim, a terapia tem me ajudado a compreender minhas relações sociais, me entender melhor e respeitar meu tempo para conseguir realizar minhas atividades e objetivos.

Desatando nós (Blog Fãs da Psicanálise)
Entretanto, nós sabemos que esses tipos de tratamento não são nada baratos. E quando se consegue uma consulta, muitas vezes somos diagnosticados aconselhados a tomarmos remédios, que dependendo da sua função são inacessíveis. Enquanto nossa necessidade de buscar ajuda só aumenta. Por isso, resolvi tirar algumas dúvidas que tinha com minha psicoterapeuta, Elaine Mattos, que além de mim trata uma série de pacientes. Elaine possui 20 anos de formação e especialização na área da saúde mental. Tem experiência em Psicoterapia da criança e adolescente, Mestrado em Neurologia, e 10 anos de experiência nos transtornos mentais da infância, adolescência e vida adulta nos serviços CAPS.
P: Como já dito anteriormente, nosso redor tem influência direta em nosso comportamento. Particularmente, vejo que este contexto político-social que vivemos no Brasil pode influenciar nosso estado emocional de forma direta. E foi com essa pergunta que abri o papo com ela. R: “Eu acho que influencia muito porque as pessoas não estão seguras quanto ao futuro. Quando não está claro para todo mundo sobre qual será o futuro de nossa situação financeira a questão da saúde, da educação e da segurança pode sim gerar sintomas no indivíduo, que podem se tornar graves caso não haja tratamento.”
P: Por muitas vezes reparamos em alguém que faz parte de nosso convívio meio cabisbaixo, inseguro e mais triste que o normal. Como devemos proceder para tentar ajudar? R: “O importante é primeiro acolher esta pessoa e dizer que você percebe que ela não está bem e que irá ajudá-la a buscar um tratamento para voltar a ser o que era. Agora, se a pessoa não tem essa percepção, o importante é avisar a família o que você tem notado. Além de orientá-los a encaminhar para ajuda psiquiátrica ou psicológica.”
P: E quando o problema aparentemente é com você mesmo, como saber se as coisas estão fora de si? R: “Quando percebemos que não estamos bem nós precisamos buscar ajuda profissional. Precisamos primeiro observar como é que está a nossa rotina. O que que eu tenho feito? Eu tenho trabalhado demais? Eu ando fazendo coisas para me sentir melhor em relação a lazer e descanso? Como estão as minhas relações sociais? Se você perceber que as coisas não estão bem como eu já foram, então é hora de você buscar uma ajuda.”
P: Falar de depressão e saúde mental em si já não é das tarefas mais fáceis, quando incluímos remédios para esses tratamentos, a situação complica mais ainda. Afinal, remédios são uma saída? R: “Diria que é uma ferramenta a mais, mas sozinho ele não vai resolver. É preciso a psicoterapia para trabalhar os disparadores externos que causam todos os sintomas.”
P: Sabemos que o custo das consultas e do tratamento da nossa saúde mental é bastante caro na maioria das vezes. Qual a alternativa para quem não tem condição financeira de ingressar em uma terapia R: “O SUS possui equipamentos de saúde que são específicos para saúde mental. O primeiro passo é a pessoa procurar a UBS (Unidade Básica de Saúde) de referência mais próxima e solicitar o atendimento com o clínico geral. Então você vai dizer a ele que precisa passar com um psicólogo e lá mesmo se agenda a consulta. Após o psicólogo fazer a sua avaliação os seus atendimentos serão marcados, lá na própria posto de saúde. Agora, se ele entender que você tem necessidade, que para o seu caso a cidade é de um serviço mais especializado, mais intensivo que tem um projeto terapêutico com com atendimento multiprofissional ele vai te encaminhar para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Esse serviço é direcionado para quem tem severos e persistentes transtornos mentais. O CAPS é um serviço de porta aberta, ou seja, não precisa de encaminhamento para ir até uma unidade. Basta levar o seu RG junto
É normal nós vermos pessoas que estão ao nosso redor e algumas vezes nós mesmos guardarmos muitas coisas. Cicatrizes do passado, paranoias, tropeços e frustrações que tentamos deixar no passado e voltam quando menos esperamos em nossas mentes. É dolorido se abrir, é dolorido relembrar essas coisas. E definitivamente é muito menos confortável contar seus dramas para alguém que eventualmente pode te julgar. Por essas e outras que é tão importante pedir ajuda profissional, pois quem está ao nosso lado, por mais que nos ame incondicionalmente, não está pronto para nos ouvir e compreender nossas angústias.
É muito legal e louvável você se dispor a abrir o seu inbox para pessoas contarem seus problemas. É bacana sua atitude de se preocupar em postar correntes sobre o assunto. Mas lembre-se: você ajuda muito mais essa pessoa ao encaminhá-la a um profissional que passou anos estudando nossas mentes.
Trate-se com respeito, busque ajuda e ajude. Por mais que possa parecer, você não está sozinho, e seu sofrimento pode sim ser reduzido e ter fim.


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