O mais humano entre os Deuses
- Victor Ferreira

- 7 de dez. de 2020
- 2 min de leitura
Poucos descreveram tão bem a América do Sul quanto Eduardo Galeano em suas obras. E todos sabemos que é impossível tratar do continente sulamericano sem falar de futebol e seus heróis. Definitivamente Maradona é um deles, ao meu ver, o MAIOR deles.
Segundo Galeano, Diego era “um deus sujo e pecador, o mais humano dos deuses”, e acredito que seja impossível definir o craque com tamanha precisão.
Diego era a síntese do exagero, uma verdadeira hipérbole ambulante. Maradona viveu, e viveu como eu viveria se fora ele.
O exagero sempre foi parte de sua persona. Ora, ele exagerou ao deixar tantos ingleses para trás em 86. Exagerou também no mesmo jogo em levar a guerra das Malvinas para dentro do Estádio Asteca e, com a sagacidade cabida, dar com a mão o toque que vingaria seu povo naquela partida. Vingança essa, que por ironia do destino ou não, só poderia ser cumprida por mãos divinas.

A mão que toca a bola é a mão que vibra por seu povo (Foto: ARCHIVO EL PERIÓDICO DE CATALUNYA)
Mais céticos costumam chamar esse lance de trapaça. Eu, particularmente vibro com aquele gol, sobretudo por todo o contexto histórico, como se estivesse assistindo o final de Django Livre, trama de Tarantino, onde o personagem principal mata friamente um a um àqueles que lhe causaram tanta dor e mataram tantos dos seus, prejudicando parte grande de sua história.
Diego Maradona era herói, era também um anti-herói. Era D10S, mas era demônio. E incorporava todos esses personagens porque era simplesmente um ser humano normal -ou quase isso- passível de erros e escorregões. Mas cá entre nós, qual ser humano normal seria digno de ter um trono destinado ao seu traseiro -divino?-

Com direito a trono: a volta de Diego Maradona ao futebol argentino como técnico do Gimnasia (Getty Images)
O personagem que perdemos hoje era daqueles maiores que a própria vida. Era grande pelo que fez, pela forma que fez, e sobretudo por quem representava ao realizar suas façanhas. Diego, assim como Deus, era de sua gente e por ela operava seus milagres.

Finalmente Diego pode devolver o que havia pego emprestado em 86 (Arte de Lucas Levitan, @Lucaslevitan no instagram)
Diego Armando Maradona nos gramados era Che, era Fidel, era Lula. E ele não amava tanto esses líderes por acaso. Assim como eles, El Pibe de Oro representou a realização da utopia e da ilusão. Afinal, quem em sã consciência acreditaria que um gordinho rebelde de 1,65 poderia carregar a esperança de um povo tão sofrido em suas costas com tanta naturalidade? Não à toa foi necessária uma mãozinha.

Goste você ou não Diego sempre esteve pelo povo (Foto: Marcos Brindicci/Reuters/Arquivo)


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