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Canabidiol: o consumo da planta proíbida para fins medicinais

  • Foto do escritor: Victor Ferreira
    Victor Ferreira
  • 25 de abr. de 2019
  • 5 min de leitura

Óleos derivados da maconha têm sido usados para tratamento de diversas doenças, principalmente a epilepsia

No Brasil, cerca de 1,3% da população sofre com a epilepsia, sendo que 50% das vítimas são crianças. Estes dados tornam a doença um problema de saúde pública, visto que ela já tem uma taxa maior que doenças infecto-contagiosas, que aparentam ser mais comuns. É um baque enorme descobrir que um filho possui a doença, porém, isso já foi muito mais complicado antes. Hoje, profissionais com especialização na área possuem um diagnóstico muito mais preciso de cada caso, deixando de ser uma incógnita para ter um aumento considerável na possibilidade de cura com um tratamento mais adequado.

Em meados de 2013, a CNN acompanhou o caso de uma jovem que possuia um caso muito grave de epilepsia, e que passou a ter melhora clara quando foi medicada com um extrato da Cannabis Sativia, o Canabidiol, que tem propriedades anticonvulsionantes. A menina que antes tinha em torno de 300 convulsões ao mês começou a ter apenas duas, e não bastasse a melhoria enorme nas crises de convulsão, ainda apresentou avanços consideráveis quanto ao autismo (que geralmente acompanha os casos de epilepsia). Após a matéria do veículo inglês o mundo passou a dar mais atenção e discutir sobre o uso medicinal da maconha. A imagem de jovens escondidos em um canto da cidade fumando um cigarro ilegal começou a ser ignorada, e os holofotes viraram-se para o uso da planta de forma medicinal, visto o potencial que possuem várias de suas propriedades.

Os Estados Unidos foram pioneiros em relação a legalização medicinal, são hoje 22 estados com leis e regras mais efetivas sobre o tema, permitindo o consumo mediante a uma prescrição médica. Mesmo estados que não legalizaram totalmente liberaram um grande número de pacientes a utilizar a planta em seus tratamentos. Grupos mais conservadores que se posicionaram contra a legalização tiveram como principal argumento a influência negativa que a lei teria sobre os jovens, imaginando que incentivaria o uso. Então, institutos de pesquisas norte americanos decidiram averiguar o número de usuários antes e depois da aprovação da lei, e irônicamente houve uma leve queda. Outro tabu quebrado, foi o de que a criminalidade aumentaria após a regulamentação, e outro cientista resolveu levantar dados. Com números do FBI, estudou 18 estados que legalizaram e mais uma vez o resultado foi surpreendente: clara queda de crimes e ocorrências. Com a legalização, vem a fiscalização do estado junto, e assim é mais fácil se obter uma maior qualidade nos produtos, além disso, as práticas ilegais caem consideravelmente. Mas não precisamos ir tão longe assim para ver um exemplo de que a legalização não é um bicho de sete cabeças, nossos vizinhos uruguaios legalizaram o uso recreativo(consequentemente o medicinal também). Embora uma parte considerável da população tenha sido contra, o então presidente José Mujica assinou a lei que permitiria qualquer residente em solo uruguaio a compra, consumo e cultivo de maconha. Basta se cadastrar em um banco de usuários, e assim pode comprar a droga de vendedores fiscalizados pelo governo.

Mas e o Brasil? Como se posiciona nosso país em relação as drogas? Estamos muito atrasados nesse aspecto? Bem…diria que sim. Desde 2006 a legislação brasileira permite o uso medicinal através de uma autorização especial da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e embora haja esse direito, poucos já exerceram ou sabem que podem exercê-lo, pois é pouco divulgado. Além da falta de comunicação, outro percalço é não poder cultivar a planta, pois com a política proibicionista do Estado, quem plantar e cultivar a partir de certa quantidade pode ser indiciado como traficante. Pessoas que precisam da planta para tratar os distúrbios precisam passar por toda a burocracia da Anvisa e pagar valores absurdos, pois têm de importar os produtos. O maior problema disso é o fato de prejudicar o tratamento de boa parte dos pacientes, e é quase que um incentivo ao tráfico, devida a quantidade de barreiras geradas pelos órgãos regulamentadores. O número de vítimas é grande, os remédios convencionais além de caros, não são tão eficientes quanto os derivados da maconha, e o acesso aos medicamentos com o CBD são barrados por quem deveria faciltar o acesso. A conta infelizmente não fecha assim, e as famílias que precisam tanto acabam no desespero.

Falei com Eduardo Caminata Junior, diretor do Purple Day Brazil, sobre pais que eventualmente recorrem aos produtos derivados da maconha de forma ilegal. “Existem muitos pais que adquirem o medicamento de forma informal e por algumas vezes até mesmo sem a orientação médica. O tratamento com o CBD ainda é algo muito recente sem resultados concretos a médio e longo prazo…O uso da pasta não nos dá a certeza de que o paciente sempre será medicado com a mesma quantidade, o que pode ser negativo dentro do processo evolutivo do tratamento” Ainda que mais comedido, Eduardo é compreensivo em relação as medidas tomadas pelos pais: “Entendemos perfeitamente a postura das mães e percebemos o quanto lutam pela qualidade de vida de seus filhos e sabemos o quanto desejam o controle das crises dessas crianças, seja lá de que forma for, mesmo assim temos que tomar muito cuidado com o que dizemos ou induzimos as pessoas a pensarem… parece que agimos contra o CBD, mas não é isso, apenas acreditamos que é preciso ter certeza que o tratamento é benéfico e para que perfil de paciente ele ajudará positivamente.”

Eduardo é diretor responsável pela Purple Day Brasil, movimento responsável por conscientizar pais de crianças epiléticas. Uma das metas, é tratar a doença com maior naturalidade, derrubando alguns paradigmas e preconceitos que a sociedade tem. “Um dos maiores problemas enfrentados pela pessoa com epilepsia é exatamente o estigma e o preconceito que tem como fonte a falta de informação e conhecimento da sociedade de maneira em geral”. Além das caminhadas, o evento promove a interação entre pacientes, palestras, distribuição de materiais informativos e diversas atividades. São Paulo é a capital que mais leva pessoas a marcha, e outras capitais têm aderido o movimento, a tendência é só crescer. Mesmo com todos os avanços recentes, a epilepsia ainda tem o olhar preconceituoso de muitas pessoas, por pura e simples ignorância. Espaços no mercado de trabalho são escassos, a convivência ainda não é totalmente ampla. Eventos como esse são fundamentais para a melhora geral dos pacientes, e colaboram muito na interação social.

Os tratamentos com remédios alternativos também sofrem com a barreira da ignorância, e embora os resultados sejam recentes, o CBD tem impactado na vida de muitas pessoas. O debate é realmente complexo, e tem de acontecer. A epilepsia tem de ser tratada com a responsabilidade e a naturalidade devida, e para isso, tabus precisam ser quebrados aos poucos. Fato é que o mundo tem discutido isso, e o Brasil não ficou para trás. Mais estudos virão, mais resultados serão divulgados, e vamos torcer para que quem mais precisa seja beneficiado.

 
 
 

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