Brasil, país do futebol?
- Victor Ferreira

- 25 de abr. de 2019
- 3 min de leitura
Durante toda minha vida cresci ouvindo que o Brasil é o país do futebol. Naturalmente, tornei isso como verdade. E ora, como não seríamos, cinco estrelas no peito definitivamente não são pouca coisa, longe disso. Só nós somos penta, só nós revelamos Pelé, Garrincha, Romário, Rivellino, Gerson, Falcão, Sócrates, Rivaldo, Ronaldo, Zico, Neymar e tantos outros. A lista é enorme, e os artistas que a compõem também. Mas esses feitos realmente nos tornam o país do futebol?
O brasileiro é apaixonado pelo esporte, não vivemos sem. Está presente nos botecos, escritórios, padarias e qualquer lugar que passe um pessoal. É parte da nossa cultura de fato. Mas ao meu ver, um país que trata o seu torcedor como o Brasil trata não pode ser chamado de país do futebol.
📷Só entra quem pode (DANIEL VORLEY/AGIF/GAZETA PRESS)
De acordo com estudo realizado por Oliver Seitz, que dá aula no curso de administração esportiva na University College of Football Business de Londres, o preço dos ingressos praticado no Brasil é o mais inacessível do mundo. O levantamento aponta que os brasileiros que recebem um salário mínimo precisam de 11 horas trabalhadas para ver seu time em campo, enquanto os alemães precisam de apenas 2 horas de serviço. O 7 a 1 fica até menor quando se depara com essas informações, não?
📷O povo clama (Cris Dissat / Fim de Jogo)
Agora você deve estar pensando: lei da oferta e demanda, o preço está aí, paga quem pode ou quer. Seria simples assim se não fosse pelo fato de termos ano após ano médias de público e frequência ridículas nos estádios brasileiros. E pior, nossos números ficam mais pífios ainda se nos compararmos a média da grande MLS, Liga norte americana de futebol. Sim, nós vamos menos ao estádio do que a galera que vai comer hot dog e assistir soccer. Percebe o tamanho do prejuízo? Enquanto a liga da terra do Tio Sam teve em 2018 a média de 21 mil torcedores, o nosso campeonato local contou com a pífia média de 18 mil torcedores. Nós gostamos menos de futebol que os yankees? Acredito que seja improvável.
📷A conta é simples: ingresso caro, estádio vazio (Rodrigo Gazzanel/Futura Press)
Não bastassem os preços absurdos, o brasileiro que quer acompanhar seu time de perto ainda precisa ceder e em alguns casos seguir uma cartilha de comportamento imposta por alguma alma iluminada que sequer pisou em uma arquibancada. Atualmente, temos punições sem sentido que na teoria visam a segurança nos estádios, mas que na prática, acabam arruinando o espetáculo e a experiência de ir a campo torcer pelo clube que ama. Nossos campos estão cada vez mais vazios, sem cor e sem vida. Não pode mais bandeira, não pode mais faixa, não pode mais sinalizador. Entra, senta na cadeira acolchoada e só levanta se sair gol -o de trás pode reclamar e te pedir para sentar-. Em terras tupiniquins, o torcedor é invariavelmente jogado para escanteio. Ingresso caro, proibições descabidas, péssimos espetáculos e descaso aliado a incompetência de quem nos devia garantir o mínimo de segurança. O principal lazer do brasileiro virou algo elitista, sem graça e pasteurizado.
📷Acompanhar o time de coração de perto é privilégio (Twitter: @b_calio)
Os valores impraticáveis nos nossos ingressos além de escancararem uma clara desconexão da realidade por parte das autoridades, acaba minando nossa paixão gradativamente. Que tipo de milagre um pai ou mãe têm que fazer para levar seus filhos ao campo hoje em dia? E se tiverem mais de um filho? Vão ao jogo e não comem o resto do mês? Mais fácil assinar a ESPN e acompanhar o Barcelona na televisão. Enquanto isso, nossa identidade vai minguando, e só vamos notar o estrago quando tivermos uma festa daquelas na Avenida Paulista após o Real Madrid vencer outra Champions League.
Somos o país dos craques, do jogo bonito, mas não o país que cultua esse esporte maravilhoso chamado futebol. As entidades que organizam o futebol brasileiro pouco se importam com o maior patrimônio que têm. Afinal, que graça teria esse jogo se não fosse pelo povo que o acompanha?
📷Sempre bom lembrar (Divulgação)


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