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A Bíblia do Rap brasileiro

  • Foto do escritor: Victor Ferreira
    Victor Ferreira
  • 25 de abr. de 2019
  • 3 min de leitura

Da fúria negra de Capítulo 4, Versículo 3 à esperança de encontrar a Fórmula Mágica da Paz, Sobrevivendo no Inferno traz nuances e histórias que fazem desse trabalho o maior e mais relevante álbum da história do Rap nacional.

O álbum começa com a forte oração para Ogum, na faixa “Jorge da Capadócia”, uma introdução que já indica a grandeza do que está por vir na sequência. A primeira faixa, já citada, é “Capítulo 4, Versículo 3", um dos hits do disco que escancara a violência periférica. Quase um guia prático do que literalmente é sobreviver no inferno e viver anos e anos contrariando as estatísticas. O clássico é seguido do storytelling “Tô Ouvindo Alguém Me chamar”, talvez a música mais visual do disco, onde Mano Brown em 11 minutos conta em primeira pessoa as andanças de mais um Rapaz Comum que vive no mundo do crime junto de seu parceiro Guina, praticamente um filme.

Claro que trabalhos clássicos são compostos de músicas clássicas, e Diário de um Detento definitivamente tem esse tamanho. Esse som que é quase obrigação saber de cor e salteado se você mora na zona sul, é uma adaptação de Mano Brown sobre os relatos do ex-detento Jocenir, que traz à tona as mais diversas brechas do sistema e o lugar que um detento ocupa aos olhos da sociedade. Além disso, é talvez o relato mais fiel possível do massacre do Carandiru, ocorrido no dia 2 de outubro de 1992.

“Periferia é Periferia” é mais uma das ricas crônicas de Edi Rock, que ganha vida e impacto no refrão que samplea “Brasília Periferia”, som do GOG, e mostra basicamente que o descaso do Estado, a violência policial e o alto consumo de drogas são parte do pesadelo periférico universal, independente da quebrada. Seguindo na toada cronista de Edi Rock, temos “Qual Mentira Vou Acreditar”, som que para mim é o mais divertido do disco. Com um funk do bom como batida, Rock e Ice Blue mostram quão comum são as duras e enquadros da polícia para os pretos da periferia, a ponto de virarem baixareis pós graduados em tomar geral.

A última faixa do álbum é “Fórmula Mágica da Paz”, em que Brown canta a vida de mais um cara que convive no contexto do caos, com choro e correria no saguão do hospital, mas que no fim do dia luta e faz de tudo para encontrar a sua paz em meio a esse cenário desfavorável e de cotidiano violento.

Esse álbum apresenta as mais diversas denúncias, como a violência policial, a pobreza e o crime. Além de trazer uma visão fidedigna de uma quebrada junto a seus causos e problemas. A riqueza e variedade de batidas trazidas pelo mestre KLJay, a revolta e determinação de Mano Brown, o olhar crônico de Edi Rock e a sagacidade de Ice Blue reforçam a clareza nas ideias e a capacidade de divertir, conscientizar e informar, tornando essa obra algo atemporal e à frente de seu tempo desde o momento de seu lançamento.

Fato é que Sobrevivendo no Inferno ainda é muito mais atual do que imaginamos, tanto pelos dados cantados pelo sobrevivente Primo Preto na faixa inicial, quanto pelo fato de estar na lista de obras obrigatórias para o vestibular da Unicamp de 2020.

Neste disco os Racionais relatam o pior dos cenários, mas em momento algum nos tiram a fé e a esperança de triunfar e sair do campo minado que vivemos. Enquanto os quatro pretos mais perigosos do Brasil estiverem na ativa vamos todos sobreviver, da Baixada Fluminense à Ceilândia.

 
 
 

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